sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Maquiavel e as grandes corporações

A competência técnica dos bons profissionais começa a se tornar senso comum. Se compararmos as suas qualificações constataremos que se assemelham muito: Eu falo inglês. Você fala Inglês. Você fala espanhol. Eu falo espanhol. Eu tenho experiência profissional comprovada. Você tem experiência profissional comprovada. Você já atuou em várias empresas de várias nacionalidades. Eu também.
Diante de tantas paridades em relação às habilidades técnicas, o indivíduo tem que buscar o seu diferencial. As boas escolas de negócios oferecem hoje o que há de mais moderno e atual sobre as novas teorias.

Todas têm em seus currículos como leitura obrigatória Estratégia Competitiva do guru americano Michael Porter. Se o indivíduo compreender e aplicar corretamente as suas teorias possivelmente terá êxito em sua carreira. Será mesmo?
O que mais observo e ouço são frases do tipo: O meu chefe nunca leu Porter e não vai nem querer ouvir eu falar… As pessoas na empresa são absolutamente indiferentes a divagações teóricas… Em meus planos se eu escrever isto, vão me chamar de teórico pedante… E logo vem a frase: Isto vende? Até mesmos os gringos que adoram o uso de metodologias avançadas já disparam:
show me the money…
A palavra execução está no lábio de todos. Pouco se ouve falar em estratégia. Em suma a prática está desbancando a teoria. A síndrome do dia 30 desestabiliza qualquer formulação um pouco mais teórica.

E aí vem a frustração de quem consumiu alguns anos do valioso tempo e, sobretudo dinheiro, investindo em capacitação e qualificação profissional e se depara com o “senso comum” que gravita no mundo dos negócios, em que muitas vezes se expressar de forma conceitual cria um mal estar generalizado. Por outro lado, continuo convencido que uma boa teoria faz bem para uma boa prática.
Não se desespere. Se você detém uma boa carga de conhecimento conceitual, agora só lhe falta entender um pouco mais de política.
Sim, hoje o profissional tem que trabalhar muito mais as suas habilidades políticas do que teóricas. E isto requer um exercício quase que diário: ouvir muito, dialogar sempre, ceder nos seus pontos de vista (muitas vezes) exercer uma capacidade “confederativa” e, sobretudo, ter um estômago do tamanho de um pântano para engolir muitos “sapos”. A leitura de "O Príncipe" de Maquiavel é atualíssima para o mundo das organizações.

As idéias desse autor já provocaram muitos protestos ao longo dos tempos, levando, até mesmo, o adjetivo de “maquiavélico” a tomar conotação pejorativa, que mantém até hoje. “Diabólico” foi o mínimo que os adversários mais ferrenhos disseram dele.
Exatamente por sua obsessão pela política enquanto prática, "O Príncipe" não é um tratado teórico, tampouco uma obra especulativa em busca de explicações profundas sobre a natureza dos fenômenos sociais e nem se prende a rígidos critérios científicos. O fascínio de Maquiavel é o fascínio das coisas práticas para objetivos elevados. "O Príncipe" é um guia para ação. Só que uma ação política.

A leitura mais apurada da sua obra nos ajuda a compreender como é o movimento político interno das empresas. Porque pessoas com formação modesta possuem tanto poder, desequilibram forças, e possuem prestígio profissional sem necessariamente ter lido Porter. O inverso também é verdadeiro: quantos profissionais com excelente formação e bom conteúdo acadêmico não conseguem obter sucesso, pela ausência de manejo político no ambiente organizacional.
Tom Peters citou recentemente: "Leiam mais romances e menos livros de negócios. Relações são tudo".
Portanto, anime-se se você já tem uma boa formação, que é parte mais difícil e onerosa, trate agora de estudar a obra de Maquiavel e se aprofundar na compreensão política do mundo dos negócios. Assim, entenderá porque muitos acontecimentos não possuem explicação teórica, mas sim política.

Como diria Maquiavel: "As ações não podem ser adiadas, quando adiadas só trazem benefício para o inimigo! "

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